domingo, 16 de abril de 2017

Testamento - Alda Lara.

Hoje, o meu sobrinho Francisco deu-me a conhecer, e ofereceu-me, este lindo Poema, que eu ainda não conhecia. Testamento de Alda Lara.

Deixo-o aqui com um obrigada de gratidão. Francisco, jovem adulto, a trilhar o C(K)aminho...


TESTAMENTO

À prostituta mais nova,
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo,
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus...

E os livros, rosários  meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
esses, são de dor
sincera e desordenada...
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu Amor...

Para que, na paz da hora,
em que minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,

vás, por essa noite fora...
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua...

Lisboa, 1950

in ALDA LARA A Mulher e a Poetisa (1966)

 
Poetisa angolana, Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque nasceu a 9 de junho de 1930, em Benguela e faleceu em Cambambe, no Kwanza-Norte, a 30 de janeiro de 1962.
À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhamdo algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua..

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=1354 © Luso-Poemas
À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhamdo algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua..


Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=1354 © Luso-Poemas

sábado, 15 de abril de 2017

MÃE






Faz hoje um ano que partiste, Mãe...
Gostavas tanto de ir à Senhora da Orada... e foste, e fomos, enquanto pudeste...
Quando já não podias eu dizia-te baixinho, Mãe eu vou à Senhora da Orada mas depois passo ainda por aqui, e a Mãe respondia, então vai, Filha. E eu ia, só, mas com a Mãe no meu coração e com todas as imagens de quando iamos juntas.

Faz hoje um ano e parece que já passaram décadas sem a tua presença...

Mas andas por aqui a esvoaçar,,, e a povoar o meu pensamento de tudo o que foste, de tudo o que me deixaste... 

17 de junho de 2015 
O nosso último anversário juntas... Eternamente juntas


 
As tuas flores, as tuas árvores... as tuas mãos nas minhas costas, suaves, suavemente, doces, docemente, a tua voz de mel nos momentos mais difíceis...



Fazes-me tanta falta, Mãe!
Fazes-nos tanta falta....






Faz hoje um ano que partiste, Mãe (palavra tão doce, tão terna, como a palavra Amor), e as ruas que percorremos parecem-me muito mais sombrias, muito mais tristes... Faltas lá tu MÃE...






sexta-feira, 7 de abril de 2017

Histórias ouvidas com o (K)coração


Eles eram jovens no tempo e no casamento, num tempo em que o sonho lhes iluminava o olhar.  Eles pouco tinham mas muito os unia... as filhas e um futuro imenso pela frente. 
Eram tão jovens... Nada lhes "metia medo"...
Nos dias em que a fartura não era muita Ele pegava na flaubert, na pólvora e nos chumbos e Ela acompanhava-o e, juntos, iam caçar "passarinhos". Ele "carregava" a arma e quando os passarinhos estavam na mira ela soprava um carvão em brasa que servia para detonar a carga. Era um momento de silêncios, de partilha e de harmonia nos gestos... rosto com rosto... comunhão no fazer e no que os impelia a fazê-lo...

Eu imagino o momento e emociono-me com as imagens que construo... Não me lembro, ainda não existia, mas é como se me lembrasse pois, pela voz e emoção na voz, pelo olhar e emoção no olhar, de quem me contou, é como se tambem eu estivesse lá, naqueles momentos, naqueles tempos... 

E também eu solto uma lágrima de saudade...


Nos tempos que vivemos em que tudo temos e parecemos insatisfeitos com tudo...
Nestes tempos em que a insegurança grassa pelo planeta...
Nestes dias em que anda meio mundo a enganar o outro meio...
Nestes tempos que eu não entendo,,, busco o silêncio, no contacto direto com a terra,,, Procuro ser útil dentro da minha pequenez,,, Evito o ruído... de palavras barulhentas, de opiniões a torto e a direito...
Manter um sorriso de cara lavada longe de formas de viver que ainda me causam admiração pela sua leviandade e superficialidade,,, Encontro-me na reflexão do que já foi e já não é... na recordação de outros momentos e outros rostos que já não estão presentes e nos rostos que estão... e que todos, no seu conjunto, me dizem tanto...
No entanto, não me escondo, como a avestruz de cara enfiada na areia, apenas não me permito que a minha vida se transforme em mero ruído ou em sofrimento constante com tudo o que anda "à solta"... 
Como se a VIDA não fosse o mais importante... 
E a VIDA é viver... não ter fome, ter paz, transmitir paz, ter equilírio...